Qual abordagem utilizar ao se aplicar o Design na Educação brasileira?

Criança e Design by thiagoreginaldo
Criança e Design, a photo by thiagoreginaldo on Flickr.

Na área educacional existem diferentes abordagens e teorias que orientam o trabalho no espaço de ensino-aprendizagem, de maneira que, se deve estar ciente das possibilidades e individualidades de cada abordagem pedagógica e seus benefícios em diferentes contextos educacionais. No uso do Design na Educação surgem diversas dúvidas em quais estratégias pedagógicas pode estar ancorado o trabalho de Design e suas relações com a escola brasileira.

Uma das primeiras autoras a discutir sobre as abordagens de ensino-aprendizagem no Brasil foi Maria Mizukami em 1986. De acordo com a autora existem cinco abordagens principais: tradicional, comportamentalista, humanista, cognitivista (interacionista) e sociocultural. Cada abordagem, segundo ela, fornece diretrizes à ação docente e cada educador se apropria delas de forma individual. No entanto, ao longo dos tempos até os dias atuais essas abordagens foram sendo adaptadas e outras abordagens surgiram e complementaram tais teorias para poder atender as transformações socioeconômicas e culturais. Dentre essas novas teorias e abordagens que agregam valor aos estudos de Mizukami podem-se citar a teorias da Complexidade, Inter/Transdisciplinaridade, Multirreferencialidade, as Inovações na Educação, entre outras.

Na educação brasileira a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB 9.394/96) define a perspectiva sociocultural e histórica como modelo a ser utilizado pelos educadores. Dentre alguns autores basilares dessa teoria estão Vigotsky e Paulo Freire, e autores mais atuais como José Manuel Moran. Moran fala em uma educação inovadora com os seguintes eixos: o conhecimento integrador e inovador, o desenvolvimento da autoestima/autoconhecimento, a formação do estudante-empreendedor e a construção do estudante-cidadão. As ideias do autor se adequam bem a proposta do Design na Educação, pois, despertam a inovação social e a atitude empreendedora no aluno e na comunidade.

Depois de compreender um pouco sobre as abordagens pedagógicas é preciso agora saber quais dessas abordagens podem potencializar o Design na Educação. Um trabalho bastante interessante é o de Antônio Fontoura (2002) que propõe um modelo de Design para a educação brasileira chamado de EdaDe (Educação de crianças e jovens através do Design). Ele se baseia na pedagogia da ação e no construtivismo como base educacional para a proposta e a interdisciplinaridade como atitude assumida da ação educativa. Assim, o autor define que “as atividades de design, tendo em vista a sua natureza, são boas oportunidades para se criar e promover as condições necessárias para a construção ativa de conhecimentos na sala de aula seja por meio da manipulação dos objetos ou pela interação da criança com o ambiente” (p.42). Fontoura cita também em sua teoria as ideias de Ausebel e o aprendizado significativo, de Gardner e os conhecimentos intuitivos, o construtivismo de Papert, a realidade social e cultural de Paulo Freire e outros muitos autores. Ou seja, apesar da veia construtivista do EdaDe outras abordagens foram utilizadas e apropriadas para justificar sua teoria e as possibilidades do Design. Todavia, o modelo teórico de Fontoura apesar de ter sido feito para a realidade brasileira se norteia em como o Design é utilizado fora do Brasil com experiências de 2002, a época do estudo. Para tanto são necessários outros estudos do Design na Educação de acordo com a realidade brasileira de modo mais profundo, uma vez que, o uso do Design na Educação no Brasil é recente. Além disso, torna-se precioso o acompanhamento da aplicação do Design na Educação através de estudos de campo práticos e reais.

O nosso país é plural em sua cultura e diversidade e o Design deve ser pensado nesse contexto durante as atividades escolares. Toda a comunidade (professores, alunos, direção, pais, moradores e sociedade em geral) precisa compor a escola e ser responsável em suas atividades. A escola, como espaço de ensino-aprendizagem, não pode estar limitada somente a sala de aula. Precisa estar fora da sala de aula também, no cotidiano do aluno e cidadão. Consequentemente surgem conceitos preciosos que se adequam a qualquer abordagem que anseie trabalhar o Design na Educação: colaboração, co-criação, empatia, criatividade, inovação social, experimentação, entre outros.

As abordagens educacionais como visto até aqui servem como modelo e possibilidade para o educador trabalhar o Design. As abordagens construtivistas (interacionistas e sociais) e inovadoras apresentam grande potencial de contribuição para o Design na Educação baseado no protagonismo estudantil, inovação e criatividade no espaço escolar. As atitudes na escola de inter/transdisciplinaridade contribuem para o uso do Design e para o trabalho com projetos na educação. Entretanto, a discussão não para por aqui visto a necessidade de mais estudos e discussões nessa área.

Referências
FONTOURA, A. M. EdaDe: a educação de crianças e jovens através do design. Tese de doutorado. Engenharia de Produção. Florianópolis: 2002.
MIZUKAMI, Maria da Graça Nicoletti. Ensino: as abordagens do processo. São Paulo: EPU, 1986.
MORAN, José Manuel. A educação que Desejamos. 2. ed. São Paulo: Papirus, 2007.

Sobre Thiago Reginaldo

Educador, Designer e Gestor de TI.

Publicado em 7 de janeiro de 2014, em Design na Educação e marcado como , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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